domingo, 13 de maio de 2012

A DIVISÃO DE PAPEIS NA SOCIEDADE DOS GUAIAQUIS

A DIVISÃO DE PAPEIS NA SOCIEDADE DOS GUAIAQUIS CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. In Rio de Janeiro, 1978. Por Raimundo Nery* “Pierre Clastres (Paris, 7 de maio de 1934 — Gabriac, 29 de julho de 1977) foi um importante antropólogo e etnógrafo francês da segunda metade do século XX. Clastres é conhecido, sobretudo por seus trabalhos de antropologia política, suas convicções anarquistas e anti-autoritárias e por sua pesquisa sobre os índios Guaiaquis do Paraguai.” “Filósofo de formação se interessou pela antropologia e especificamente pela América do Sul sob a influência de Claude Lévi-Strauss e de Alfred Métraux. Foi diretor de pesquisa no Centre National de La Recherche Scientifique (CNRS, Paris) e membro do Laboratoire d´Anthropologie Sociale do Collège de France. Realizou pesquisas de campo na América do Sul entre os índios Guayaki, Guarani eYanomami. Publicou Crônica dos índios Guayaki (1972), A sociedade contra o Estado (1974), e A fala sagrada - mitos e cantos sagrados dos índios Guarani (1974). Sua morte prematura, em um acidente de carro em 1977, interrompeu a conclusão de textos que mais tarde seriam reunidos no livro Arqueologia da violência - ensaios de antropologia política (1980).” “Uma de suas principais contribuições para a antropologia foi sua crítica à visão, até então dominante, de que sociedades como as dos índios da América do Sul são mais "primitivas" ou "menos desenvolvidas culturalmente" do que sociedades mais hierárquicas, onde a presença do Estado é mais evidente – como no caso das sociedades Maia, Inca e Asteca. Ele procurou demonstrar a falsidade do pressuposto de que todas as sociedades necessariamente evoluem de um sistema "tribal", "comunista" e "igualitário" para sistemas mais hierárquicos. As sociedades não hierárquicas, segundo seus estudos, possuem mecanismos culturais que impedem ativamente o aparecimento de figuras de comando – seja isolando os possíveis candidatos a chefe (como no caso dos Pajés), seja destituindo-os do poder do mando (como no caso dos chefes que só têm poder para aconselhar). Sendo assim, elas não estariam evoluindo em direção à estatização: ao contrário, configuram-se como verdadeiras sociedades "contra o Estado", pois sua dinâmica cultural almejaria precisamente impedir a formação de uma classe de dirigentes e outra de dirigidos.”. O Artigo “O Arco e o Cesto”, extraído do quinto capitulo do livro A Sociedade contra o Estado de Pierre Clastres, faz uma análise etnográfica da cultura dos Guaiaquis dando ênfase na dimensão simbólica que atua na vida sociológica da tribo. Clastres inicia o texto falando que a Tribo dos Guaiaquis é nômade e que a vida tribal é bem definida, a divisão de papeis dos homens( arco extensão do corpo) caçadores sustentáculos da existência dos Guaiaquis e o papel das mulheres( cesto carregado na testa) encarregadas de coletar os alimentos escassos, cuidar das crianças e ser responsável pela logística e transporte das mudanças de Acampamento. O CLASTRES explica a importância do Arco que é símbolo de masculinidade e identidade própria como caçador abençoado por Tupã com cantos solos épico e do cesto símbolo de feminilidade da mulher poliândrica, multisserviçal, portadora de cânticos de lamentações, pelos infortúnios vivenciados no dia-a-dia. A divisão de papeis dos GUAIAQUIS começa na tenra idade da infância pueril, onde os curumins recebem os seus instrumentos de trabalho e identidade de gênero, através dos utensílios sagrados, onde os meninos conscientes da força da PANÉ ou maldição jamais pega em um cesto símbolo feminina sagrado das meninas que se tornam mulheres a parte dos doze anos, conscientes da força da pané que gera maldição e azar na caça e evita deixar o seu arco longe de seu corpo, porque se torna uma extensão até o momento de partida em que são cremados juntos, evitando que uma mulher pegue e transmita a pané que amaldiçoa o arco e o seu portador, ameaçando a sustento e perpetuidade da tribo desde a infância com os ritos de iniciações coletivas. Clastres expõe o fato concreto da força da pané na vida de dois índios que eram panemas e carregavam o cesto. O homem viúvo conhecido pelo no Chaehubutawachugi sendo panema perde os privilégios de caçador passa a carregar o cesto no peito para se distinguir das mulheres, proibido portar o arco símbolo da masculinidade, é rejeitado pela tribo e desprezado pelas mulheres da tribo, proibidas de ter relação poliândrica com um panema e de se interessava pelo viúvo, desprovido do poder de caçar com arco. Chaehubutawachugi era motivo de piada na tribo. O segundo panema era, Krembégi que vivia como as mulheres, devido sua semelhança feminina até mesmo na execução dos trabalhos restritos às mulheres, era homossexual, pederasta e sodomita, servido de fonte de prazeres aos demais caçadores e até mesmo ao viúvo Chaehubutawachugi, nas festas secretas de orgias e sexo coletivo, por isso era respeitado em detrimento do viúvo panema que só recebia desprezo, humilhação e rejeição por parte dos caçadores hipócritas, arcava como bode expiatório, tendo que vivenciar as consequências da maldição, impossibilitado e proibido de caçar ou usar o arco, podia até pegar tatus e caças de pequeno porte com as mãos, para a própria sobrevivência, por viver isolado, por falta de conexão dialógica. Clastres destaca a importância do canto na sociedade dos Guaiaquis, onde as mulheres se reuniam para compartilhar os cantos de lamentações, choros acerca dos problemas existenciais da tribo, externando saudações de chorosas, em tom queixoso, com voz forte, cantando a realidade sofrida, agachadas e com o rosto escondido entre as mãos. O momento ápice da Vida tribal é o momento do canto solo masculino, onde cada caçador exalta as suas glórias, suas práticas heroicas, suas vitórias de maneira ereta, cabeça erguida, demonstrando autoestima e alegria ao cantar na parte da noite, as suas proezas épicas. Clastres destaca a pouca densidade demográfica na tribo Guaiaquis, onde o número de homens era superior ao de mulheres, onde para sobrevivência e existência dos povos Guaiaquis passaram a adotar a relação POLIÂNDRICA como forma de solucionar os conflitos tribais e a provável extinção dos Guaiaquis, pois cada mulher poderia ter dois e até três maridos, rejeitando sob quaisquer parâmetros a prática celibatária, é bom frisar que os Guaiaquis foram o único povo indígena que os celibatários e moralistas jesuítas foram incapazes de impor a doutrina imperialista dos Estados Pontifíceis. O nascimento dos nascituros do sexo masculino, ema uma vitória para a tribo, porque o homem caçador é o sustentáculo da existência da tribo, onde o sacrifício pessoal cede lugar aos interesses da coletividade, da solidariedade, da partilha e da própria existência da tribo Guaiaquis, os guerreiros passam a noite em vigília para proteger a tribo, prontos a sacrificar a vida em defesa das pessoas, o caçador se realiza no espaço da floresta como algo sagrado, consciente que é o sustentador da perpetuidade da tribo, este é o papel masculino dentro da tribo, todos os sacrifícios ajudam a sobrevivência do grupo, em nome da sociedade solidária Guaiaquis, onde cada caçador tudo suporta em função do bem estar da coletividade. Clastres finaliza o artigo “O Arco e o Cesto” dizendo que o canto solo do Caçador Guaiaquis expressa o desejo secreto, sua impossibilidade pelo fato de só poder sonhar, visto que é proibido consumir as suas próprias caças, troféus de sua exaltação como sustentador e provedor da perpetuidade de todo a Sociedade dos Guaiaquis, devido a PANÉ e ter uma mulher exclusiva só para si mesmo, sem ter que compartilhar com outro caçador ou outros Caçadores. A joia preciosa, “O Arco e o Cesto”, é um artigo útil para discentes das áreas humanas, exatas, ciências sociais, e biotecnológicas, e demais profissionais comprometidos em quebrar paradigmas educativos e sociológicos e formar médicos, advogados, historiadores, geógrafos, políticos, psicólogos, biólogos, antropólogos, filósofos, teólogos, pedagogos e acima de tudo docentes e discentes estimuladores do respeito mútuo a diversidade cultural, mediando à práxis da multidiversidade presente na vida de cada povo singular, portador de uma identidade cultural única, própria e irrestrita como a Tribo dos Guaiaquis.••. * Raimundo Nery( Raimundo Nonato Nery de Sousa) discente do 1º semestre de Pedagogia Matutino do INSTITUTO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR DE BRASÍLIA (IESB-OESTE) e-mail: raynery.sousa@gmail.com; http://raimundonerysousa.blogspot.com.br/2012/05/divisao-de-papeis-ca-sociedade-dos.html. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: CLASTRES, Pierre. “O Arco e o Cesto”. A Sociedade contra o Estado. Pesquisas de Antropologia Política. Tradução de Theo Santiago. - Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. Págs. 71-89. FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Clastres. 13 de maio de 2012.

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